quinta-feira, 30 de agosto de 2018

RIGIDEZ NOS PROCESSOS DE MUDANÇA EM FAMÍLIAS COM DEPENDÊNCIAS




 “A mente que se abre a uma nova ideia nunca retorna ao seu tamanho original.” No entanto, abrir a mente é um exercício complicado.”
Albert Einstein

As famílias devem organizar-se através de regras de funcionamento que não podem ser nem muito rígidas, nem muito flexíveis. Deverá haver um constante reajuste, no sentido de uma adaptação progressiva a novos fatores quer de ordem interna, quer de ordem externa à própria família.
A rigidez e a homeostasia são as principais características de grande parte destas famílias, sendo difícil a implementação de mudanças. Há falta de flexibilidade e incapacidade para lidar com o stresse, sobretudo durante as crises desenvolvimentais. Um toxicodependente é alguém que quer tudo e imediatamente. Quando o invade a angústia ou o desejo da droga, ele não sabe esperar.
Domingos Neto, defende que não faz sentido responsabilizar os pais por um fenómeno que assumiu proporções epidémicas e que acompanha as profundas transformações sociais dos últimos anos, nomeadamente mudanças profundas na estrutura da família. Na sua opinião, não há famílias nem educações ideais e em muitos aspetos, as famílias dos toxicómanos são superiormente dotadas, sendo que a queda de um dos seus filhos revela a conjugação de vários fatores.
Refere ainda que “muitas famílias são passíveis de mudança e temos maior sucesso no tratamento dos toxicómanos, quando as famílias são paralelamente acompanhadas, tornando-se em preciosas aliadas dos terapeutas.”
30/08/2018
Sofia Almeida

ANAMNESE DO TOXICODEPENDENTE





Por vezes a anamnese do toxicodependente mostra-se aparentemente limpa de fatores vulnerabilizantes.

Muitas vezes a família gera um escudo de proteção à volta da criança, escudo este que evita por um lado, os perigos do exterior, mas também cria um meio artificial onde a criança não aprende a lidar com a situação de perigo ou de conflito.

Também o excesso de apreciação gera um escudo narcísico que não favorece o desenvolvimento dum narcisismo normal, segundo Fleming, pois, sistematicamente “elogiadas e admiradas, mesmo quando cometiam faltas graves, estas crianças, a quem o espelho do olhar do outro sempre devolveram uma imagem de ser grandioso, desenvolveram uma autoadmiração acrítica que se transforma numa fonte exclusiva de autoestima”.

Ainda segundo a autora, estas crianças não foram expostas a fatores de risco o que, mais tarde, na sequência de algo que não correu bem, surgem perturbações de comportamento, nomeadamente os aditivos, pelo que, o encontro e a descoberta dos efeitos poderosos e mágicos das substâncias tóxicas podem satisfazer de imediato o desequilíbrio e reparar o dano narcísico”

Sofia Almeida
30/08/2018



PERTURBAÇÕES IDENTIFICATÓRIAS EM TOXICODEPENDENTES




Na compreensão da realidade intrapsíquica do toxicodependente, o modelo psicanalítico acentua a importância das perturbações identificatórias associadas à ausência/demissão de um dos progenitores, ao excessivo envolvimento e superproteção do outro progenitor e/ou à patologia de um ou de ambos.

Autores como Amaral Dias e Bergeret sublinham o défice de internacionalização do imago paterno em indivíduos toxicodependentes, muitas vezes acompanhada por uma relação fusional/conflitual com a figura materna. Bergeret afirma que a ausência de uma imagem paterna identificatória pode resultar da ausência física do pai ou da carência/excesso da autoridade paternal, sendo o pai vivenciado como agressor.

Nestas famílias é frequente observar-se que um dos progenitores está mais intensamente envolvido com o toxicodependente, enquanto o outro é mais punitivo, distante ou ausente. Stanton, Wellish, Gay e McEntee referem que o progenitor mais envolvido é geralmente o do sexo oposto ao toxicodependente.

Harbin e Maziar referem que o padrão familiar mais consistentemente encontrado é o da mãe superprotetora e indulgente e o do pai emocionalmente distante ou ausente. Nestas famílias a figura materna é predominante. O pai ou é apagado, ou sujeito a sucessivos ataques de zanga, embora muitas vezes temido. Há também casos em que a figura materna é secundária e o do pai predominante.

Contudo, os autores sublinharam que este padrão não é exclusivo das famílias com um elemento toxicodependente, pois o mesmo pode ser igualmente observado em famílias com outras queixas sintomáticas, tais como, fobia escolar e esquizofrenia.
30/08/2018
Sofia Almeida

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

INCONSISTÊNCIA PARENTAL




Verifica-se uma maior frequência de problemas de disciplina em famílias com elementos toxicodependentes. Diversos estudos têm evidenciado uma extrema indulgência e inconsistência parental para com o dependente.

Oscilando muitas vezes entre o estilo laissez-faire e um estilo autoritário, estes pais revelam muitas dificuldades em definir regras educativas claras, embora possam definir limites rígidos para certos comportamentos. Quando esta postura é adotada por cada um dos progenitores em momentos diferentes, a perturbação é ainda maior, originando muitas vezes, triângulos relacionais disfuncionais, marcados por fortes coligações.

Há famílias onde apenas um dos estilos educativos é predominante: O laissez-faire ou o autoritário. Raramente se encontra “um estilo democrático que comprometa pais e filhos na definição e controlo das regras (Fleming).

As regras hierárquicas são praticamente inexistentes ou então verifica-se uma inversão da hierarquia geracional tornando as fronteiras difusas. Stanton e Todd fazem referência a uma inversão da hierarquia familiar, de tal modo que o subsistema parental se torna menos influente que o subsistema filial.

Para além da ausência de clareza e de consistência nas normas parentais, a indefinição de limites é também frequente. Os pais entram frequentemente em conflito sobre o modo de educar e os tipos de disciplina a utilizar, o que se torna ainda mais difícil, quando na maior parte das vezes os toxicodependentes não os tiveram na infância e na adolescência.

Stanton e Todd confirmam esta ideia falando de fronteiras ou limites pouco claros no subsistema familiar. Kaufman refere uma ausência de limites e elos claros na díade pai-filho resultando numa relação de emaranhamento, distantes ou demasiado difusas e equívocas.

Sofia Almeida
02/08/2018



ADAPTABILIDADE À MUDANÇA





Face às exigências atuais esperadas a grande parte dos progenitores, cada vez mais é difícil à família nuclear manter o seu papel tradicional, vocacionado para um cuidadoso empenhamento na função parental e, consequentemente educativa, com um permanente auxílio e atenção aos filhos até à idade em que eles próprios também cumpram esta função.

Não obstante, é importante a família adaptar-se às necessidades e exigências inerentes ao desenvolvimento dos seus membros, respeitando a sua individualidade e consequentemente criando condições para o seu saudável crescimento, não se fixando em padrões rígidos. A família deve crescer e desenvolver-se como se tratasse de um organismo vivo, procurando mudar à medida que os seus elementos também mudam.

Como refere Isabel Andrade “trata-se de dar à criança a segurança e a liberdade necessárias para que aprenda a situar-se na sociedade e a enfrentar as dificuldades. É importante que os pais não sejam demasiado rígidos nem demasiado indecisos. Um amor cego que satisfaça todos os desejos da criança pode vir a favorecer uma toxicodependência ulterior. A criança habitua-se a ter tudo e não suportará a frustração quando for confrontada com dificuldades. Porque foi incitada para uma mentalidade de consumo, quando não é satisfeita de imediato, logo procurará compensar-se.”

Sofia Almeida
02/08/2018


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

HOMEOSTASE NA TOXICODEPENDÊNCIA





Ao analisarmos a família como uma globalidade de trocas, mensagens e de relações que se interligam e complementam, devemos considerar que qualquer problema ou sintoma de um dos elementos da família não pode ser visto como um problema isolado.

A regulação do sistema familiar é regido por dois movimentos que se interligam de modo a encontrar o equilíbrio, são eles a homeostase e a morfogénese. Por um lado, a morfogénese impulsiona o sistema familiar para a mudança necessária nos momentos de stresse do ciclo vital da família; por outro lado, a homeostase impulsiona o sistema para o equilíbrio. É da conjugação harmoniosa destes movimentos que a família vai permitindo aos seus elementos o cumprimento das suas funções internas e externas.

Homeostase ou homeostasia, segundo a Wikipédia, é a condição de relativa estabilidade da qual o organismo necessita para realizar suas funções adequadamente para o equilíbrio do corpo. É a propriedade de um sistema aberto, especialmente dos seres vivos, de regular o seu ambiente interno, de modo a manter uma condição estável mediante múltiplos ajustes de equilíbrio dinâmico, controlados por mecanismos de regulação inter-relacionados.

A toxicodependência funciona na família como o sintoma de que a estrutura familiar necessita para manter a homeostase, tendo uma função estabilizadora. Stanton e seus colaboradores formulam mesmo a hipótese de que a dependência à droga possa funcionar como um mecanismo estabilizador quando a balança homeostática familiar entra em rutura. A droga é a prova da rotura do equilíbrio e das frechas na funcionalidade do sistema familiar.

O papel do toxicodependente, enquanto “paciente identificado” pode deslocar-se dentro da família para um qualquer irmão, permitindo a modificação do sistema sem que nada mude. “O sintoma preenche novamente os requisitos homeostáticos da família em momentos diferentes e por meios diferentes” (Sternschuss-Angel).
            Sofia Almeida
01/08/2018




COMUNICAÇÃO EM FAMÍLIAS DE DEPENDENTES





A comunicação em famílias de dependentes é frequentemente patológica

Nas famílias onde existe um toxicodependente, o diálogo ou é inexistente ou é ambíguo, apresentando falta de clareza. Por vezes existe uma circulação excessiva de informação e por vezes escassez da mesma. Os jogos de segredos tornam o processo comunicacional ainda mais difícil, assumindo o consumo de drogas, uma função de comunicação.

Ausloos acentua este aspeto da família e vê no sintoma da droga uma linguagem, um modo de comunicar. Stanton e seus colaboradores referem que a rigidez do sistema familiar é claramente evidente e o consumo de drogas é percecionado como um sintoma de uma família disfuncionante.

É difícil detetar a patologia da família do toxicodependente, estando esta camuflada, só sendo trazida através da manifestação de um sintoma por parte de um dos elementos da família, nomeadamente a toxicodependência que funciona como rutura da falsa estabilidade familiar.

Muitas vezes os filhos toxicodependentes cumprem a função de canal de comunicação entre os pais, tentando triangular as suas relações (quando estes estão demasiado afastados), tornando-se assim no foco das atenções e garantindo as tomadas de papéis por parte dos seus pais (e, consequentemente, o retomar da sua relação, quanto mais não seja parcialmente).

Sofia Almeida
01/08/2018