terça-feira, 4 de março de 2014

VINCULAÇÃO




Conhecer como é que as relações interpessoais afetam quem somos e em quem nos tornamos, afigura-se como tema central no estudo do desenvolvimento humano. O papel desempenhado pelo ambiente no desenvolvimento do indivíduo, nomeadamente o ambiente relacional, é considerado pelos atuais modelos transacionais de desenvolvimento, conjuntamente com o sistema biológico, como o seu mais importante sistema regulador.

O interesse pelo estudo da vinculação é relativamente recente. As primeiras investigações foram realizadas por Bowlby em crianças, nos anos trinta do século passado. Nestas investigações procurava-se avaliar a organização comportamental da vinculação na primeira infância, resultando na Teoria da Vinculação, podendo esta ser considerada como uma teoria global do desenvolvimento socio-emocional, como refere Canavarro.

Como médico, Bowlby trabalhou com crianças inadaptadas, as quais lhe suscitaram o interesse em estudar os problemas da privação dos cuidados maternos no posterior desenvolvimento do indivíduo e respetivos comportamentos, contribuindo de forma preciosa e pioneira, para a compreensão da formação, manutenção e perturbações dos laços afetivos que podiam explicar algumas das perturbações (nomeadamente distúrbios de personalidade e até mesmo psiquiátricos) que o autor observava em pacientes adultos. Efetivamente, nas observações que vai fazendo, constata que alguns dos comportamentos de crianças privadas de cuidados maternos se assemelhavam aos observados nos seus pacientes em psicoterapias sujeitos a separações precoces.

Assim, segundo a Teoria de Vinculação de Bowlby as primeiras interações da criança com a figura de vinculação são o pilar que vai permitir as relações afetivas no futuro e a representação da relação com os outros, estabelecendo o padrão de vinculação que se manterá estável, e que, deste modo, como refere Canavarro “será indiretamente responsável pela saúde mental na idade adulta”.

Foi só nos anos oitenta que a investigação sobre este tema se estendeu a outros períodos  do desenvolvimento humano, preocupando-se com a representação da linguagem relacionada com a vinculação. Assim tornou-se possível o estudo na adolescência e na idade adulta, começando a aparecer vários estudos que procuravam analisar a associação entre a vinculação e outras dimensões do adolescente e do jovem. Os trabalhos sobre vinculação têm vindo a aumentar numa série de áreas, incluindo espécies não humanas, em diferentes culturas e em vários estádios do ciclo vital.


O termo vinculação, do latim vinculum ou vinclum, significa “laço, atadura, e pode dar lugar ainda a grilhões, cadeias, prisões”( Barros, Braga e Dantas). Vínculo, do latim vinculu, significa “tudo o que serve para prender ou atar; atilho; laço; nó; liame; vencilho; relação; bens vinculados; morgadio; ligação moral ou parentesco; o casamento.”(Dicionário da Língua Portuguesa, 8ª Edição, Porto Editora). Vincular, significa “atar; ligar; prender por meio de vínculos; sujeitar; obrigar; prender moralmente; ligar-se; arreigar-se; perpetuar-se; firmar; segurar ou obter a posse; emprazar; referente a vínculo.” (Dicionário da Língua Portuguesa, 8ª Edição, Porto Editora).

Bowlby, utilizou o termo vinculação para designar qualquer comportamento que tem como objetivo a manutenção da proximidade da criança com a figura de vinculação. Esta particular situação variará de acordo com determinados fatores emocionais inerentes à criança, ao meio onde tudo se processa e ao comportamento da figura que cuida. Assim, a vinculação corresponde ao modo pelo qual o sistema comportamental se organiza em relação a uma figura específica, figura essa, em que a criança procurará proximidade e contacto, sendo o comportamento um modo, um atributo à figura vinculada, persistente e não afetado por situações momentâneas; sendo estabelecido, tende a perdurar no tempo e no espaço.

A função do comportamento de vinculação é a proteção do perigo, o conteúdo da relação está centrado na regulação da segurança, ou seja, a manutenção da relação é experienciada como fonte de segurança (proteção contra o perigo) e satisfação; caso esta seja ameaçada, observa-se o ciúme, ansiedade e raiva; se ocorrer rutura, há dor ou mesmo depressão. Demonstra assim,  que a acessibilidade das figuras parentais é o único meio capaz de produzir sentimentos de segurança na criança.

Bowlby enfatiza a importância da carga emocional inerente a esta relação, pois considera que é durante a formação, manutenção e rutura da relação de vinculação, que a maior parte das emoções mais intensas eclodem. Posteriormente alargou o conceito a todo o ciclo de vida, apesar dos seus trabalhos se centrarem, essencialmente na infância e na adolescência.

Bretherton, refere-nos que existe uma figura (vinculada) que procurará proteção, e uma figura (de vinculação) como sendo mais forte e mais capaz para se confrontar com o mundo, que facultará segurança, conforto ou ajuda.

Ainsworth, diz que a componente responsável pela evolução da vinculação é a prestação de cuidados que está, por sua vez, relacionada com a função de proteção; ou seja, a relação de vinculação desenvolve-se na interação destes sistemas: o da criança, que procura cuidados e atenção que lhe proporcionem a satisfação das suas necessidades de proteção e segurança e a do adulto, capaz e disponível para dar resposta às solicitações, materializadas na prestação de cuidados. Afirma também que o sistema de vinculação é um entre outros, de base biológica e característico da espécie.

“Ainsworth, Blehar, Waters e wall sublinharam que o que realiza a vinculação é o comportamento que promove a proximidade ou o contacto com uma ou mais figuras específicas a que o indivíduo está vinculado.”

Vinculação, é para Figueiredo, “um conjunto de comportamentos que têm como principal objetivo manter a proximidade com pessoa ou pessoas específicas às quais se está ligado por sentimentos afetuosos, num sentido muito geral.”

Vinculação, segundo Madalena Alarcão “Relação privilegiada com uma figura particular que confere segurança e proteção através dos cuidados que a mesma proporciona. Esta relação é interativa, desenvolvendo-se numa relação complementar entre os dois parceiros: um que solicita cuidados e atenções que lhe garantam a satisfação das suas necessidades de segurança e proteção e outro que tem que ser responsivo, i.é, ser capaz de compreender e responder adequadamente às solicitações recebidas através da prestação de cuidados. Se a figura de vinculação realizar regularmente este papel, a figura vinculada pode desenvolver uma confiança básica que lhe proporcionará um sentimento de segurança necessário ao desenvolvimento da atividade de exploração do mundo envolvente. De acordo com as características desta relação vinculativa a criança interiorizará um modelo particular de vinculação relativamente estável durante toda a vida. De acordo com a investigação realizada, distinguem-se três grandes modelos de vinculação: a vinculação segura..., vinculação insegura...( tipo inseguro-evitante e inseguro-ambivalente) ..., e um último tipo, designado como desorganizado/desorientado...”

“Lerner e Rytt, cit. por Bretherton, realizaram uma revisão sobre definições de vinculação, comentando que “definir vinculação é como operacionalizar um ideal platónico. Essa dificuldade pode ser ilustrada com as distinções encontradas na literatura entre vinculação e dependência, afiliação, relações objetais e comportamentos de vinculação. A maior controvérsia em torno da delimitação de fronteiras do conceito de vinculação foi o paralelismo feito por alguns autores com o conceito de dependência e comportamentos de vinculação.

Bowlby refere-nos a propósito, que o conceito de vinculação deve ser distinguido do conceito de dependência e explica-nos através do conceito de sistema comportamental, dizendo que os comportamentos mais simples vão sendo organizados em sistemas mais complexos, já que as condições de ativação e desativação do comportamento de vinculação não são sempre as mesmas ao longo do ciclo de vida do indivíduo, podendo diminuir e até mesmo ser representado através de meios sofisticados de comunicação, nomeadamente, telefonemas, cartas, fotos, etc.

Barros et al. dizem que “a vinculação contém em si um sentimento de pertença e está associada ao ímpeto da separação. O sentimento de pertença está em oposição à afirmação de autonomização tornando-se numa luta de inconciliáveis contradições, que está subjacente a todo o tipo de vinculações e desvinculações pelas quais passamos ao longo da vida”. Em resposta a esta assimilação, Rutter apoiado por outros autores, referiu que na relação de vinculação, a ênfase é colocada na promoção de segurança que permite encorajar a independência. A vinculação não é uma forma imatura de dependência, a ultrapassar, mas uma plataforma que permite o funcionamento autónomo.”


Como refere Ainsworth, a Teoria de vinculação defende a ideia de que todos os seres humanos nascem munidos de um sistema de vinculação que lhes permite procurar a proximidade de uma figura que lhes forneça proteção e uma base de segurança (base segura), a partir da qual possam explorar o meio”. É a função de proteção do sistema de vinculação que torna possível a promoção da aprendizagem e o contacto com o ambiente, pois a exploração de novos estímulos só ocorre quando a acessibilidade da figura de vinculação está garantida.
           
Bowlby diz que as relações de vinculação influenciam decisivamente o modo como a criança vê o seu meio. A criança que não teme o abandono da figura de vinculação, vê o mundo de forma não ameaçadora e por isso pode ter uma interação mais ajustada do que aquela em que prevalece o receio de abandono, tornando qualquer atividade interativa, uma fonte de potencial de ansiedade e de perturbação emocional, dificultando todo o processo de desenvolvimento psicológico. Assim, na perspetiva da Teoria da Vinculação, muitas das alterações da personalidade podem ser atribuídas a perturbações no desenvolvimento do comportamento de vinculação.

Os indivíduos que evidenciam padrões de vinculação insegura, são muitas vezes descritos como dependentes, imaturos, ansiosos, e sob stress são capazes de desenvolver sintomas neuróticos, depressão ou comportamentos fóbicos. Nos indivíduos com uma vinculação ansiosa, qualquer que seja a idade, o comportamento de vinculação é ativado frequentemente, de modo urgente, e é persistente, mesmo sem haver aparentemente qualquer condição que o justifique. Estes indivíduos não têm confiança sobre a acessibilidade e responsividade das suas figuras de vinculação quando necessárias, adotando a estratégia de manter a proximidade, numa tentativa de assegurar a sua disponibilidade. A vinculação insegura ou ansiosa parece resultar de experiências desfavoráveis ou adversas nas situações em que o sistema de vinculação está ativado e caracteriza-se pelo desejo de manter os parceiros próximos, existindo hipervigilância, relativamente a aspetos ligados à separação; a presença e disponibilidade do parceiro é percecionada como incerta.

A vinculação evitante, caracteriza-se por estratégias de diminuição da importância da relação; os parceiros são percecionados como fontes indutoras de stress e alvos de desconfiança ((Hazan & Shaver).  Para Bowlby, o estabelecimento destes tipos de vinculação pode constituir um fator de risco em termos psicopatológicos, na medida em que pode levar os indivíduos a responder de modo adverso ao stress e a serem mais vulneráveis a perturbações psicopatológicas.

Bowlby defende que as características dos indivíduos com tipos de vinculação ansiosa ou evitante, tendem a permanecer ao longo do desenvolvimento, pois os modelos internos de vinculação que o indivíduo constrói durante a infância e a adolescência tendem a persistir ao longo da idade adulta. Como resultado, há uma tendência em assimilar qualquer outra pessoa com quem estabelece uma ligação afetiva (cônjuge, filho, amigo) ao modelo das figuras de vinculação e do self, apesar deste modelo ser inadequado.

A vinculação segura, segundo o mesmo autor, está baseada nas experiências repetidas nas quais o medo e a ansiedade foram avaliados de um modo adequado, pelas intervenções da figura de vinculação, levando a criança a retomar as explorações do meio. Outros autores (Hazan & Shaver), referem que neste tipo de vinculação, as relações com parceiros decorrem com facilidade; estes são percecionados como respondendo às necessidades do próprio, sempre que necessário, proporcionando desta forma uma sensação de segurança e bem estar.



Bowlby criou mapas cognitivos (modelos internos de vinculação), que designa por Working Models, para explicar a representação das relações de vinculação. Estes são constituídos por conhecimentos e expectativas sobre a figura de vinculação, em termos da acessibilidade e responsividade; e sobre o self, em termos do seu valor pessoal e capacidade de a afetar. Funcionam como guias que interpretam as experiências, orientam e ajudam a monitorizar o comportamento, ativado o sistema em situações de stress emocional (tais como experiência de medo, mal-estar, de separação, ou de perda de alguém significativo), levando a desencadear certas ações para obter proximidade da figura de vinculação. É a qualidade deste fluxo de trocas emocionais entre o self e o outro significativo nestas situações, que determina a qualidade da relação de vinculação, tornando-a promotora de segurança, insegurança ou ainda evitante. Estes mecanismos constituem os principais meios explicativos da saúde mental do adulto, que resultam da interação que a criança estabelece com a mãe, sendo, em grande parte, determinados pelo comportamento desta. Idealmente para a formação de Working Models funcionais, a mãe deve ser sensitiva aos sinais e necessidades da criança.

A ação particular das “expectativas de eficácia pessoal” ou do “autoconceito”, já havia sido referida implicitamente por Bowlby sob a designação de “Working Model sobre si próprio”. Mais recentemente, Bartholomew e Bartholomew & Horowitz enfatizaram o papel do conceito sobre si próprio, em que uma figura de vinculação sensitiva e respondente não é só uma base de segurança, a partir da qual o indivíduo pode explorar o meio, mas também um elemento capaz de produzir a sensação de que o indivíduo é capaz de despertar cuidados por parte dos outros, aumentando-lhe as expectativas de eficácia pessoal, que facilmente se generalizam a outros contextos. Por outro lado, a presença de uma figura inconsistente ou rejeitante produz a sensação de incapacidade para gerar respostas adequadas por parte dos outros, o que acaba por se traduzir em expectativas de ineficácia pessoal e baixo autoconceito.

Bartholomew & Horowitz com base nos estudos feitos por Hazan e Shaver apresentam assim, um modelo conceptual dos estilos de vinculação na idade adulta, baseados nos dois tipos de modelos internos dinâmicos propostos por Bowlby, concebendo a imagem do self como positiva ou negativa, bem como a imagem do outro. Da combinação destas duas dimensões, resultariam quatro padrões de vinculação: seguro, preocupado, evitante desligado (desligado) e o evitante com medo (medroso). Na descrição deste modelo, o tipo seguro significa a perceção de si mesmo como merecedor de cuidados; o padrão preocupado, é a perceção de si próprio como não merecedor dos cuidados dos outros; o tipo evitante, é o indivíduo com medo como não merecedor de cuidados dos outros, aliado a uma avaliação deste com as pessoas; e o evitante desligado é o indivíduo em que a perceção de si próprio se apresenta como não dando resposta às suas necessidades.

Alguns estudos (Adams & Jones; Litowsky & Dusek; Brewin et al.) que procuraram estudar a ligação entre relações afetivas com os pais e medidas de autoconceito de adolescentes e jovens adultos, revelaram de forma inequívoca, que os indivíduos que percecionam os seus pais como afetuosos e capazes de fornecer suporte, têm autoconceitos mais elevados do que aqueles que os recordam como distantes ou rejeitantes. Foram também encontrada nestes estudos, a ideia que níveis elevados de criticismo são característicos de indivíduos que durante a infância, estabeleceram relações pouco satisfatórias, caracterizadas por pouco afeto e carinho para com os progenitores.

As estratégias de “Coping” atuariam também como mecanismos intermediários entre relações afetivas e saúde mental. O facto da figura de vinculação não exibir permanentemente comportamentos adequados às necessidades do indivíduo ou ser inconsciente na emissão de respostas adequadas, gera ansiedade no indivíduo. Num esforço de adaptação a estas situações, tendo aprendido que essa figura é incapaz de o tranquilizar, o indivíduo organiza respostas de evitamento e respostas ambivalentes, tentando minimizar as incapacidades percecionadas. Esta forma de Lidar com a figura de vinculação vai sendo progressivamente generalizada a outros contextos, acabando por se transformar em padrões típicos de “Coping”.

Nos desenvolvimentos da Teoria de Vinculação encontra-se referência expressa a conceitos oriundos da Psicologia Cognitiva, verificando-se também a situação inversa. Um exemplo da interpenetração das duas áreas é a sugestão, de que, as distorções cognitivas na perceção de acontecimentos interpessoais são mecanismos mediadores entre relações afetivas e saúde mental. Pessoas com vinculação insegura, estão especialmente predispostas a interpretar acontecimentos interpessoais indutores de stress como rejeições (Hammen et al.), ou como mais uma evidência da sua falta de competências sociais (Sroufe & Fleeson), podendo surgir, como resultado, sintomatologia depressiva ou outro tipo de psicossintomatologia.

Por último, com base em estudos que confirmam a continuidade da organização cognitiva da vinculação ao longo do ciclo de vida (Main et al.); Grossmann & Grossmann, e entre gerações (Benoit & Parker), alguns autores (Rosenstein & Horowitz; Main et al, sugeriram que mecanismos de regulação do afeto, seriam as variáveis mediadoras entre as relações de vinculação e o tipo de psicopatologia apresentado. Rosenstein e Horowitz referiram que a “vinculação evitante é característica das perturbações em que a ansiedade é evitada, o afeto é contido e a expressão do comportamento disfuncional é diretamente expressa em direção aos outros (como acontece nas perturbações do comportamento ou no distúrbio de personalidade); a vinculação ansiosa é característica das perturbações em que há consciência da ansiedade sentida, o afeto não é modelado e o comportamento disfuncional é diretamente expresso em relação a si próprio (como acontece nas depressões, perturbações mediadas pela ansiedade ou distúrbio de personalidade histérica)”.



As primeiras formulações de Bowlby constituem ainda, atualmente, a base dos novos modelos que procuram ligar relações afetivas e saúde mental, ao ponto de se tornar difícil distinguir as abordagens que podem ser consideradas como desenvolvimentos do modelo, daquelas, que constituem perspetivas distintas.

Rutter considera que as principais limitações do modelo original são a de não especificar o desenvolvimento das relações e vinculação ao longo do ciclo vital e a de formular hipóteses muito gerais sobre os mecanismos intermediários entre as duas variáveis em causa.

Embora os desenvolvimentos do modelo tenham procurado ultrapassar as limitações apontadas, oferecendo neste aspeto importantes contribuições, as teses que defendem não suscitam a mesma concordância do que as formulações originais. A proposta sobre a intervenção dos mecanismos reguladores do afeto como variável mediadora entre relações de vinculação e saúde mental, comporta, nomeadamente, raciocínios circulares, de difícil comprovação empírica.

O estudo científico da vinculação começou com a análise das diferenças individuais na organização comportamental da vinculação nas crianças. Diferenças essas observáveis através de um procedimento laboratorial designado por Situação Estranha. Este procedimento consiste, numa sequência estruturada de separações e reencontros entre o bebé e a figura de vinculação, e o seu objetivo é ativar o sistema de vinculação e o de exploração.

Ainsworth e os seus colaboradores, identificaram três padrões distintos de interação com base em diferentes reações comportamentais face às figuras significativas e ao meio circundante, que, supostamente corresponderiam a diferentes estruturas internas de organização da vinculação, como mencionou Cicchetti et al, estratégias organizadas pela criança para gerir a ansiedade causada pela separação e pela reunião. Estas ter-se-ão desenvolvido a partir da acessibilidade e responsividade nas respostas das figuras de vinculação às solicitações de apoio, conforto e proteção da criança em contexto natural. Padrões de comportamento de interação da criança com a mãe, avaliados na situação Estranha de acordo com Ainsworth et al:
Padrão A: Inseguro-Evitante: Verifica-se uma exploração independente da mãe, no início separa-se da mãe para explorar o ambiente; baixa partilha de afetos, estabelece relação com o estranho; verifica-se também um evitamento ativo da mãe após a reunião, olha para o outro lado, movimenta-se noutra direção, ignora; não evita o estranho.
            Padrão B: Seguro: A mãe é uma base de segurança para exploração do ambiente, separa-se para brincar, partilha emoções enquanto brinca, estabelece relação com o estranho na presença da mãe; conforta-se rapidamente após situação indutora de stress; Procura ativa de contacto e interação após reunião; quando agitada, procura imediatamente o contacto e este põe fim à agitação; quando não está agitada, mostra-se satisfeita por ver a mãe e dá início à interação.
            Padrão C: Inseguro-Ansioso: O comportamento exploratório é pobre, tem dificuldade de se isolar para explorar o ambiente, necessita sempre de contacto, mesmo antes da separação, receio de situações e pessoas diferentes. Tem dificuldade em estabelecer contacto após a reunião, existência simultânea de procura e resistência ao contacto, gritando, dando pontapés ou rejeitando brinquedos; pode continuar a chorar e gritar ou aparentar grande passividade.

Para além dos padrões mencionados, foram identificados mais recentemente por Main e Solomon, padrões atípicos de comportamento de vinculação, caracterizados por comportamentos desorganizados, contraditórios, movimentos e expressões incompletos ou indiretos, comportamento estereotipados, movimentos assimétricos, a que designaram de Padrão D. A identificação deste quarto padrão está relacionada com o Projeto de Desenvolvimento Social levado a cabo por Main, Cassidy, Solomon, Weston, entre outros, na Universidade de Berkeley.
                       

Sofia Almeida

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

SATISFAÇÃO CONJUGAL




Existem muitas formas de definir “satisfação conjugal”. Segundo Thompson, a satisfação conjugal resulta de uma avaliação pessoal e subjetiva de cada cônjuge em relação ao casamento. Hawkins, descreve o termo como os sentimentos subjetivos de felicidade, satisfação e prazer, experienciados por cada um dos cônjuges quando consideram todos os aspetos atuais do seu casamento. Podemos verificar que existem aspetos comuns nestas duas definições de satisfação conjugal, apesar de trinta anos as separarem, nomeadamente, o carácter subjetivo da avaliação de cada um dos cônjuges em relação ao casamento.

A variável satisfação é concebida como um continuum que vai desde muito satisfeito a muito insatisfeito, sendo a satisfação conjugal, claramente, uma variável de atitude e por isso, é propriedade de cada um dos cônjuges. Por ser uma avaliação pessoal e subjetiva, as zonas da vida conjugal que cada um dos cônjuges considera mais ou menos importantes para a sua satisfação podem ser diferentes e o peso que cada  um deles lhes atribui pode ser igualmente diferente e subjetivo.

Segundo Kurdeck, o termo “satisfação” aparece frequentemente confundido com funcionalidade, com ajustamento ou com qualidade conjugal. Esta ideia demonstra bem a dificuldade que existe em isolar os aspetos que contribuem para a satisfação conjugal, parecendo esta compor-se de um conjunto de fatores que por si só não definem nem traduzem a satisfação conjugal.

Narciso refere que, pelo facto de se tratar de uma avaliação subjetiva do casamento, o conceito de satisfação conjugal assume significados diferentes de pessoa para pessoa, de casal para casal, em função das histórias e modelos pessoais, do momento do ciclo de vida, do sexo, da idade e das áreas específicas da conjugalidade. Na sua reflexão sobre o desenvolvimento do amor e da satisfação conjugal ao longo do tempo de casamento, a autora coloca algumas interrogações sobre o que pode ser considerado “satisfação”, os fatores que a afetam e o efeito que tem em cada um dos parceiros, partindo da suposição de que a satisfação depende sobretudo da perceção da funcionalidade e das valências que se atribuem a uma e a outra: “ 1. poder-se-á considerar a satisfação como um estado interno que depende da avaliação que o indivíduo faz da relação conjugal quanto aos fatores intrínsecos (sentimentos pelo outro, reciprocidade do sentimento, convergência de significações (...) amor na relação) e aos fatores inter-extrínsecos (advêm sobretudo da relação e dizem respeito à funcionalidade da relação quanto à comunicação, conflitos e resolução de conflitos, poder, resolução de problemas, distribuição de papéis, etc.); 2. Dependerá a satisfação/não satisfação do grau de positividade ou negatividade percecionado relativamente aos fatores inter-intrínsecos, aos inter-extrínsecos, da valência atribuída a cada um desses fatores e da existência de mais ou menos barreiras que pressionam o indivíduo a manter a relação; 3. Haverá um efeito contaminador da satisfação/não satisfação no outro. É importante referir que a autora considera a “não satisfação como um estado de ausência mais ou menos parcial e mais ou menos provisória de satisfação.

Trabalhos de investigação efetuados na área da satisfação conjugal (Glenn & McLanahan; Rollins & Galligan; Schram; Spanier & Lewis; Spanier, Lewis & Cole; Waldron & Routh) têm chegado a conclusões idênticas, referindo que “a satisfação conjugal tende a ter uma configuração de curva em U, existindo um declínio da satisfação a seguir ao nascimento do primeiro filho e um aumento subsequente na satisfação quando os filhos começam a sair de casa, ou seja, a satisfação conjugal e familiar parece ser maior no primeiro e últimos estádios do ciclo vital da família e a satisfação seria menor no estádio dos filhos adolescentes, ou seja, quando o stress familiar é maior”. Contudo, como refere Narciso, “estes estudos não consideraram a comparação entre casais com e sem filhos pelo que não é claro se o declínio se deve à presença dos filhos ou aos anos de casamento”.

Um estudo comparativo efetuado por Kurdeck (citado por Narciso), demonstrou que os casais com filhos apresentam um maior declínio na frequência de atividades que envolvam apenas o casal, comunicam menos verbalmente, incidindo o seu conteúdo sobretudo em questões relacionadas com os filhos e verifica-se uma menor intimidade conjugal. Narciso refere ainda que “os filhos também podem contribuir para diminuir a qualidade da relação conjugal se não existir acordo entre o casal quanto a valores e atitudes educativas. Outra fonte potencial de conflito ocasionada pela presença dos filhos é a quantidade de tarefas domésticas acrescentadas e a sua divisão entre os cônjuges”.

Para Eduardo Marques, na análise da satisfação conjugal existe um conjunto de fatores a considerar, sem os quais se torna difícil fazer um balanço da relação e da satisfação que daí lhes advém: “importa considerar áreas que se referem ao funcionamento do casal e áreas que se referem ao amor. Nestas duas áreas há que considerar aspetos ligados às funções familiares, tempos livres, autonomia de cada um dos elementos do casal, relações extrafamiliares, comunicação e conflitos, sentimentos de cada um dos parceiros em relação ao outro e a forma como os expressam, sexualidade, intimidade emocional, continuidade da relação /na perspetiva de um dos elementos do casal e a perceção que tem das expectativas de continuidade por parte do outro e características físicas e psicológicas de cada um dos elementos do casal.

  


Sofia Almeida

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

COMPORTAMENTO ADITIVO NA CULTURA HUMANA


O uso de drogas existiu em todos os tempos e culturas e tem assumido as faces religiosa, de ritualidade social, lúdica e terapêutica. Apesar da sua intensidade ter sido variada, converteu-se muitas vezes em dependência entre a humanidade e as substâncias.

Em cada tempo histórico-cultural têm sido diversas as representações sociais do uso de substâncias psicoativas. Em algumas culturas, nomeadamente nas tribos africanas e sociedades orientais, as substâncias eram consideradas como elementos de prestígio e até mesmo sagradas e costumavam fazer parte dos mecanismos de integração social dos indivíduos e dos seus quotidianos com as mais variadíssimas características e funções.

“O velho xamã prepara uma porção de Amanita Muscaria pensando relacionar-se com os espíritos para poder levar a paz ou a cura a um membro da sua tribo que estava doente”
           
No Ocidente, até aos anos sessenta, não há registo de significativo consumo de drogas. Mas com o aumento da criminalidade, com o terrorismo, com o crime económico, com o tráfico de estupefacientes (altamente lucrativo e com ligações internacionais), com o movimento Hippie (que foi um dos grandes impulsionadores do consumo de droga de forma coletiva e mais declarada alegando a revolta estudantil, a rebeldia, a oposição às normas), e com a guerra do Vietname, o consumo alastrou rapidamente e atingiu com maior ou menor intensidade, as camadas mais jovens e todas as regiões, especialmente as zonas urbanas mais degradadas onde o controlo era menor.


A moda da descoberta do desconhecido despoletada pelos anos do “Peace and love” do Pop, do movimento Hippie (Maio de 68), deu lugar nos anos oitenta e noventa à atitude de consumismo imediato “... pela moda de estar stone, estar em bruto, de cabeça cheia...vulgarizou-se o drogar para não sentir". Registou-se um aumento do consumo de opiáceos, sobretudo na Ásia Ocidental e no Leste Europeu, e, em especial, da heroína fumada, particularmente nos EUA. Também o  consumo de drogas sintéticas psicoativas, como os tranquilizantes, benzodiazepinas e os estimulantes tipo anfetaminas (designadamente o ecstasy), registou uma expansão sem precedentes sobretudo na Europa e nos Estados Unidos da América: na Europa, dá-se uma prevalência de novas drogas destinadas a combater os efeitos do stress e da depressão, crescendo o número dos consumidores com mais de 65 anos; nos Estados Unidos da América o destaque vai para o uso de drogas destinadas a melhorar a performance escolar ou laboral, com o intuito de beneficiar o aspeto físico ou atlético ou, mesmo, o desempenho sexual.

Com o consumo, o homem tem procurado “um outro estado mental” (Bénoit).  Mediante alucinogénios fugiu de si mesmo e viveu como realidade as fantasias da sua imaginação; os sedativos levaram-no a uma calma de paz e de sossego, a um estar metido em si mesmo e imune a todas as solicitudes e ansiedades do mundo exterior; os estimulantes transformaram-no no super-homem que desde criança queria ser (Cadernos de consulta Psicológica).

No final do século, descortinavam-se ainda outras tendências, para além da prevalência do consumo de estimulantes sintéticos (predominantemente recreativo no Ocidente) e da estagnação ou descida do consumo de heroína na Europa. Nomeadamente: a expansão e a diversificação de culturas ilícitas; a descentralização das organizações criminosas e o aumento do número de pequenas redes de tráfico, com a consequente fragmentação dos mercados; o uso múltiplo de drogas (com progressiva preferência, também na Europa, por formas de consumo não injetável.


Na esfera da produção vamos encontrar importantes franjas da população rural dos países produtores, envolvidos no cultivo de matérias-primas de onde são extraídas as drogas, beneficiando de lucros razoáveis, em estreita colaboração com poderosas organizações de indivíduos que visam a refinação e posterior exportação do produto para os países consumidores.

Apesar das apreensões de droga terem aumentado significativamente, assim como as quantidades e variedades disponíveis, pensa-se que estará ainda longe da droga efetivamente transacionada a nível mundial. Isto deve-se em parte à permanente expansão do comércio mundial em geral e ao consequente incremento da circulação de indivíduos e mercado os países. Paralelamente, surgem novos desafios para o controlo do circuito das drogas, como a divulgação da conceção e a comercialização de drogas ilícitas por computador, via Internet.
  

Neste início de século,  a nossa  sociedade, altamente competitiva, dá primazia ao prazer e ao poder material, que se têm vindo a sobrepor-se aos valores culturais, religiosos e outros valores sociais.
 O consumo de drogas foi reativado como moda em vários países industrializados do Ocidente e surgiram as toxicomanias contemporâneas.

 Sofia Almeida

domingo, 12 de janeiro de 2014

MITOS E SEGREDOS FAMILIARES

MITOS FAMILIARES

Segundo Relvas, “Podemos definir um mito familiar como um conjunto de crenças baseados na distorção da realidade histórica e partilhados por todos os membros da família, que ajudam a moldar as regras familiares.

Todos os mitos são crenças que transmitidas de geração em geração, não são contestadas por nenhuma das pessoas interessadas, apesar de incluírem distorções evidentes da realidade, proporcionando a cada membro da família papéis rígidos e difusos.

Ferreira, diz  que “o mito familiar é uma crença bem integrada e compartilhada por todos os membros da família e diz respeito a cada um deles e às suas posições recíprocas na vida familiar”.

Os mitos são frequentes nas famílias e podem assumir várias vertentes: o mito da harmonia familiar, o mito da loucura na família, o mito da marginalidade e o mito da expiação.

Um dos mitos mais vulgares é o do bom entendimento, exemplificando em frases “lá em casa damo-nos todos bem”, “em nossa casa ninguém discute”, “nunca houve problemas antes disto acontecer”. Este tipo de atitude é suficiente para demonstrar uma dificuldade profunda na apreensão do vivido familiar. “Parece existir uma atitude de negação e cobertura, mascarando a percepção de que algo não está bem, e a mesma estrutura familiar é mantida, o que é considerado um sinal ou sintoma da sua disfuncionalidade que a mesma apresenta. Com este mito a família terá tendência a atribuir a responsabilidade da patologia ao exterior, aos amigos de má influencia, aos educadores à sociedade em geral.

Em famílias com um elemento toxicodependente, outros mitos frequentes são o da loucura na família, responsável pela fragilidade de um membro, cujo lugar é ocupado pelo próprio toxicodependente; outro mito é o da marginalidade, em que a família parece ter um certo fascínio pela transgressão, o que implica alguma confusão relativamente aos sentimentos do jovem, pois condenam a sua escolha em nome de uma liberdade, que não aceitam; outro mito é o da expiação, em que o jovem comporta em si a culpabilidade de toda a família, incluindo a sua ( Sternschuss - Angel et al).

SEGREDOS FAMILIARES

Os segredos também são outro dos aspectos presentes nas famílias, funcionando como refúgio da família para manter a sua  homeostase. São frequentes os segredos não ditos, mas que toda a família sabe. As relações são mascaradas por atitudes de cobertura e encobrimento de determinados acontecimentos relevantes

Para Sanches e Peixoto, o segredo familiar constitui-se no sistema familiar sob a forma de um mandato a cumprir, como uma proibição de falar por medo ou angústia frente à inevitável mudança, preservando deste modo, uma realidade distorcida.

Os segredos, tal como os mitos, escondem e transformam frequentemente a realidade dolorosa da família que evita admitir em si própria aquilo que considera como falha fundamental da sua estrutura.

            Sofia Almeida



sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

AMOR PLATÓNICO




 Muitos preferem viver amores platónicos do que arriscar e experienciar o amor pleno.

O conceito de amor platónico deve-se a Platão, filósofo grego (350 a.c.) que acreditava na existência de dois mundos: o das ideias, onde tudo era perfeito e eterno e o mundo real, exatamente o oposto. Nesse sentido, viver um amor platónico é viver simultaneamente em dois mundos: um onde estamos sozinhos e outro onde namoramos e procuramos ser felizes.

Segundo Catarina Mexia, Psicóloga Clínica, terapeuta familiar e do casal, no amor impossível, o ser amado é colocado numa posição inatingível e ocorre com maior frequência no período da adolescência e em jovens adultos, mais tímidos e com dificuldades em aproximarem-se de quem amam, derivado de sentimentos como a insegurança e/ou imaturidade.

Muitas vezes o receio de não ser correspondido contribui para amar à distância e impede a sensação de amar e ser amado, cuidar e ser cuidado. Mas é esta troca de experiências emocionais que permite o sentimento de que amar vale a pena.

Outras vezes o receio de sofrer, levam-nas a não realizarem um amor, evitando desapontamentos e tristezas próprias de quem esta enamorado.

Infelizmente, a realidade das relações amorosas anda afastada da maioria das fantasias das pessoas acerca do par e da relação ideal onde reina a compreensão total, a perfeita compatibilidade e paixão eterna.

Uma relação amorosa implica crescimento pessoal e crescimento implica grande parte das vezes sofrimento, mas também felicidade. Todo o processo de namoro é um risco, uma prova de quem somos e da aceitação que os outros têm de nós.

Depois, lutar pelo amor exige sair da nossa zona de conforto. Obriga-nos a cedências, e à aceitação do outro tal como ele é. Seguem-se desentendimentos, dificuldades e frustrações que resultam normalmente na criação implícita de regras, também elas fundamentais na relação.


Mas, em última análise, todas as relações começam por ser platónicas e todos os namorados idealizados. Necessitamos de nos envolvermos para crescermos, e para crescermos temos que arriscar. Se estivermos nesta disposição poderemos finalmente tirar todo o prazer do amor pleno.
Sofia Almeida

AMIZADE



A amizade é uma espécie de amor desinteressado

Tal como o amor, a amizade é uma relação genuína com sentimentos complexos que aparecem sem avisar e não conhece critérios de idade, género ou condição social. É um misto de confiança e sensibilidade. Servem de suporte, companheirismo e partilha. Cumplicidade, estímulo intelectual e serenidade são razões que convidam a estabelecer uma relação de amizade.

Catarina Mexia, Psicóloga Clínica, questiona se tantas sensações, emoções e afetos se manterão sempre ao nível da amizade, resistindo ao amor genuíno e à sexualidade? Em tempos antigos, acreditava-se que não seria possível a amizade entre homens e mulheres, quando os nossos antepassados se dedicavam a tarefas rigidamente distribuídas em conformidade com o género. Estar juntos, só em situação de romance. Felizmente nos nossos tempos, homens e mulheres estão envolvidos num processo de socialização que lhes permite desenvolverem amizades fortes e duradouras.

Mas, se uma relação de amantes pode tornar-se numa relação de amizade, mais frequentemente uma relação de amigos pode desencadear sentimentos de amor e desejo sexual. A questão é sabermos se queremos estragar ou modificar uma relação segura e desinteressada que até ao momento funcionou bem. Quem é que se contenta em ser um bom amigo, quando deseja ardentemente ser amante? Nesses momentos de particular tensão em que o desejo ganha força, evitar a proximidade física poderá ser uma estratégia que será sempre compreendida e respeitada pelo outro.

Enquanto na vida amorosa, os sentimentos explodem como fogo de artifício, numa amizade, tratando-se de uma relação menos exigente, os sentimentos são canalizados com paciência, limites e compreensão numa relação que constitui um pilar afetivo para ambos, numa dualidade enriquecida pelas diferentes mas complementares perspetivas de cada um.

Amor e amizade, ambos preciosos, seguem na mesma direção, e encontrado o amor desinteressado, não o devemos deixar partir.





Sofia Almeida

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

SATISFAÇÃO FAMILIAR





Sendo a família uma unidade universal de organização social, constitui uma importante base da vida social com o fim último de satisfação das necessidades de cada um dos seus elementos e da família como um todo, única nas suas características.

Segundo Alarcão “É habitual pensarmos na família como o lugar onde naturalmente nascemos, crescemos e morremos, ainda que nesse longo percurso, possamos ir tendo mais do que uma família. Este é um espaço privilegiado para elaboração e aprendizagem de dimensões significativas da interação: os contactos corporais, a linguagem, a comunicação, as relações interpessoais. É ainda o espaço de vivências de relações afetivas profundas como a filiação, a fraternidade, o amor, a sexualidade… num trama de emoções e afetos positivos e negativos que, na sua elaboração, vão dando corpo ao sentimento de sermos quem somos e de pertencermos àquela e não a outra qualquer família”.

O desenvolvimento da família implica mudanças na sua dinâmica e características, ao longo do seu ciclo vital. A transição da família de um estádio a outro, visando a satisfação, implica mudanças interacionais. Os padrões de comportamento entre os membros no que concerne à definição de papéis, tomadas de decisão, afeto, comunicação e divisão de tarefas, deverão ser negociadas continuamente de forma a satisfazer as necessidades individuais e familiares, variáveis ao longo do seu ciclo de vida.

Numa linha de pensamento sistémico, o ciclo de vida da família é o contexto mais importante para o desenvolvimento dos seus membros. Os vários estádios por onde passa a família, são períodos de relativa estabilidade estrutural, sendo que em cada um destes estádios, a família é confrontada com diferentes tarefas, referentes ao seu funcionamento interno e às exigências que lhe são feitas do exterior, em momentos diferentes. O maior ou menor sucesso em lidar com estas diferentes tarefas significará uma vivência mais ou menos conseguida, o mesmo seja dizer, uma maior ou menor satisfação familiar.

A família como um todo necessita adaptar-se a cada fase do ciclo vital e estabelecer novos e estáveis padrões de interação, pois, se não o fizer, corre o risco de rigidificação e torna-se disfuncional, não permitindo a satisfação dos seus elementos ao longo do ciclo da vida da família. Assim, antes de mais, importa compreender o estádio de desenvolvimento em que a família se encontra, o que implica identificar as suas dificuldades mas também as suas próprias competências.

A satisfação familiar, conjugal e a qualidade da vida familiar são variáveis determinantes na avaliação do funcionamento familiar, sendo que, o termo satisfação é abrangente e tem diferentes perceções, dependendo dos autores e linhas de pensamento.

De acordo com o Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse, “Satisfação significa contentamento; prazer que resulta da decorrente realização do que se deseja. A palavra deriva do latim satisfacer, cujo significado é agradar, contentar; pagar ou saciar.

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o termo significa ato ou efeito de satisfazer ou de satisfazer-se; contentamento; alegria; aprazimento;

Levin defende a ideia que todos os comportamentos que o homem desenvolve visam a obtenção da satisfação, sendo estes comportamentos motivadores e sendo a motivação uma tenção persistente que leva a comportamentos para a satisfação de uma ou mais necessidades.

Sabemos hoje que alguns problemas podem constituir obstáculos à satisfação familiar: os estilos de vida em que hoje vivemos, marcados pelo relógio; as novas tecnologias no centro das relações familiares; o desaparecimento gradual das famílias alargadas para dar lugar às famílias nucleares reduzidas a espaços relacionais cada vez mais pequenos, sem o conto da avó na transição de um dia extenuante para uma noite de sono tranquila e revigorante; os contratos de trabalho daquelas mães habituadas a serem domésticas; a opção por fecundar apenas um ou dois filhos, pela consciência dos respetivos encargos financeiros.

Patrício, chama a nossa atenção para “um aumento de famílias monoparentais, substitutas, urbanas, socialmente excluídas e famílias ausentes” com “precariedade do relacionamento, dificuldades de comunicação, enfraquecimento das relações de consanguinidade, o declínio na importância social da família, o desaparecimento do sentido da vizinhança e a erosão das bases do bem-estar social”.

Eduardo Sá, por outro lado, enfatiza algumas consequências positivas de todas estas transformações e mudanças de que as famílias têm ido alvo: “…mais e melhor vida têm transformado as famílias alargadas em famílias nucleares que, em consequência da contracepção e trabalho feminino… têm trazido o homem de regresso a casa, à maternidade e à família. A igualdade de oportunidades tem-nos ensinado a conviver sem fadas do lar e revela incondicionalmente a função do casal, muito além do vínculo matrimonial, no sentido da exigência de uma maturidade relacional que se traduz, no plano da interioridade, numa união de facto…melhores condições sociais e económicas, menos filhos e melhores pais, trarão mais probabilidades de levar as pessoas à maternidade, disso dependendo a melhor qualidade de vida familiar e a sua equivalente psicológica, que se traduzirá na persistência do desejo de ser feliz.”

Numa sociedade em que a violência e o consumo competem, mas o ritmo de trabalho é adequado, a alimentação é correta, a sexualidade está equilibrada, se a educação existe, se o tempo de ócio está planeado, então a nossa capacidade de satisfação familiar será maior. Podem as crianças, os adultos e os idosos encontrar repouso nas suas famílias, pois esse é o melhor lugar para se viver.



Sofia Almeida